sábado, 21 de março de 2009

acontecimento...


Haverá na face de todos um profundo assombro
na face de alguns risos sutis cheios de reserva
Muitos se reunirão em lugares desertos
E falarão em voz baixa em novos possíveis milagres
Como se o milagre tivesse realmente se realizado
Muitos sentirão alegria
Porque deles é o primeiro milagre
E darão o óbolo do fariseu com ares humildes
Muitos não compreenderão
Porque suas inteligências vão somente até os processos
E já existem nos processos tantas dificuldades…
Alguns verão e julgarão com a alma
Outros verão e julgarão com a alma que eles não têm
Ouvirão apenas dizer…
Será belo e será ridículo
Haverá quem mude como os ventos
E haverá quem permaneça na pureza dos rochedos
No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho
Escutando verdades e mentiras
Mas não dizendo nada
Só a alegria de alguns compreenderem bastará
Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem
Que as águas mais turvas contêm ás vezes as pérolas mais belas

(verdades e mentiras... escutarei calada.)

[ou não...]

sexta-feira, 13 de março de 2009

"Protejam os fortes da ira e da inveja dos medíocres!"


De como a inveja dos fracos correlaciona-se com o poder dos mais fortes.




A frase não é exatamente esta mas o sentido sim. Nietzsche em "A genealogia da moral" observa com genialidade o quão funesta pode ser para um provável futuro glorioso da humanidade a mesquinhez intrínseca à condição dos mais fracos. Quer dizer, da grande maioria.


Levada por inúmeros caminhos a desejar os desejos dos "inatingíveis", a massa medíocre não pode presenciar sem ter revelada a ela própria a normalidade de sua condição o desfilar dos seres que se adequam com mais presteza e precisão aos ideais da sociedade. O desinibido, o loquaz, o convicto, o desprendido, o habilidoso, o feliz, o magnético, o capaz, todas essas figuras sociais despertam na massa indiferente aos iguais a atenção à diferença dos diferentes.


As estruturas do mundo dotaram as pessoas das aspirações a serem o que não são e nunca serão. Ou a terem o que não têm e nunca terão. Quando o Ser e o ter fundem-se na identidade esmigalhada do mundo do Capital, nada mais sobra a não ser o não-Ser. Tendo, sou feliz, eu sou. Não tendo, não sou.


Tenho, logo existo.


Livros de aeroporto de auto-ajuda procuram vender a incorporação das "qualidades" descritas acima que os seres invejáveis possuiriam. O intercâmbio dessas "mercadorias" tão imateriais é, no entanto, algo muito difícil. Psicólogos e psicanalistas de plantão procuram vender algumas dessas mercadorias evanescentes, isto a muito custo e gasto de tempo. Tendo ainda a enxergar, no entanto, que as características invejáveis são quase que dons intrínsecos proporcionados pelas trajetórias sociais dos indivíduos. Dificilmente são adquiridas.


E. ao contrário de Nietzsche, acredito ainda que o "fardo" que os fortes carregam nada mais são do que uma parte essencial da existência da sociedade de classes em que vivemos. Os ideais não são Ideais, são transfigurações dos ideais sociais de distinção.


Normativamente a solução seria o fim da sociedade de classes? As disparidades desapareceriam? Não, em absoluto. No entanto, a maneira de as encarar poderia ser modificada. Eis a pedra de toque. A partir do ponto em que as pessoas tomassem ciência de que os parâmetros de grandeza e de pequenez são parâmetros históricos, datados, contruídos e nada absolutos, seria possível o fim da inveja. Logo, o fim do apequenamento diante do gigante.


Até lá, protejam-se ambos: fortes e fracos. A luta está lançada.

(ah, malandro, voltei ao velhos tempos!!! agora sim!! - ou não? - ah, sim, vai!!)

ps: comentem nos posts que dizem algo intelectualmente mais denso também, e não só naqueles em que a foto mexe com seu primitivo tesão... bjomeliga!

- ou não..rss.. -

terça-feira, 10 de março de 2009

"época triste a nossa, em que é mais fácil dividir um átomo que quebrar um preconceito." (a.e.)


levítico 20:13 se um homem se deitar com outro homem, como se fosse com mulher, ambos terão praticado abominação; certamente serão mortos; o seu sangue será sobre eles.


pensem nisso!

e que a paz do senhor fique com vocês!

(ou não)

terça-feira, 3 de março de 2009

one art - by bishop


“A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério. “


(apesar de saber que não é assim tão fácil, mesmo quando as mácaras caem. ou não.)

domingo, 1 de março de 2009

é só um poema:




Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,

As flores florirâo da mesma maneira

E as árvores nâo serâo menos verdes que na Primavera passada.

A realidade nâo precisa de mim.



Sinto uma alegria enorme

Ao pensar que a minha morte nâo tem importância nenhuma.



Se soubesse que amanhâ morria

E a Primavera era depois de amanhâ,

Morreria contente, porque ela era depois de amanhâ.

Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senâo no seu tempo?

Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;

E gosto porque assim seria, mesmo que eu nâo gostasse.

Por isso, se morrer agora, morro contente,

Porque tudo é real e tudo está certo.



Podem rezar latim sobre o meu caixâo, se quiserem.

Se quiserem, podem dançar e cantar á roda dele.

Nâo tenho preferências para quando já nâo puder ter preferências.

O que for, quando for, é que será e que é.



(ou não é só)