quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Há-rmário.





há uma pantera me esperando de tocaia:
algum dia vou morrer graças a ela;
sua gana ateou fogo nas florestas,
ela espreita, envolvente como a lua.
muito macio e suave desliza seu passo,
avançando sempre pelas minhas costas;
da cicuta soturna, gralhas gritam desastre:
a caçada começa, o cerco está armado.
esfolada por espinhos eu percorro pedras,
ressecada pelo calor branco do meio-dia.
ao longo da rede vermelha de suas veias
que fogos correm, que desejos despertam?

insaciável, ela explora e pilha o território
condenado pela falha de nossos ancestrais,
gritando: sangue, que o sangue jorre mais;
carne tem que encher na sua boca o rasgo novo.
afiados os dentes dilacerantes e doce
a chamuscada fúria de sua pelugem;
seus beijos deixam crestas, as patas, fuligem,
só um juízo final consumirá sua fome.
no rastro da grande felina encarniçada,
acesos como tochas para sua diversão,
homens tostados e devorados no chão
viram iscas de sua fúria esfomeada.

morros já tramam perigo, a sombra se incuba;
a meia-noite encobre o bosque opressor;
a saqueadora negra, atrelada pelo amor
nos quadris fluentes, me força à fuga.
por trás do matagal confuso dos meus olhos
fléxil ela espera; na emboscada dos sonhos,
brilhantes as garras que estraçalham corpos
e famintas, famintas, suas tensas coxas.
seu ardor me enlaça, incendeia as árvores,
e eu fujo com minha pele já flamejante;
qual acalanto, qual alívio será frio bastante
quando esse olhar de topázio queima e marca?

lanço-lhe meu coração para frear seu ritmo,
desperdiço sangue para saciar sua sede;
ela come, mas não alivia sua ansiedade,
que requer compulsiva um total sacrifício.
sua voz me alicia, me enfeitiça em transe,
a floresta estripada desmorona em cinzas;
apavorada por desejo secreto, fujo ainda
de um ataque tão violento e rutilante.
entrando na torre dos medos mais sentidos,
fecho as portas da minha culpa sinistra,
eu tranco a porta, tranco toda e cada porta.
o sangue acelera, retumba nos ouvidos:

os passos da pantera vêm pelas escadas,
subindo mais, subindo mais pelas escadas.



...

ok, saí.

(ou não?)

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